Mundo Jiu Editorial | 3 de maio de 2026
Um dos treinadores mais influentes do Brasil está preso. O que se sabe até agora, e o que ainda está por vir.

O Jiu-Jitsu brasileiro acordou diferente na última semana de abril de 2026. A notícia correu rápido, como sempre corre quando envolve um nome grande, mas desta vez o silêncio que se seguiu foi diferente do silêncio de sempre. Mais pesado. Mais carregado de perguntas que a comunidade há muito preferia não fazer em voz alta.
Melqui Galvão, considerado por muitos o treinador mais proeminente do Brasil no Jiu-Jitsu atual, foi preso sob acusações que incluem suposto abuso sexual de menor de idade. Um homem que construiu campeões, que colocou o Brasil no topo do ranking mundial por meio de uma geração inteira de atletas, agora responde a um processo criminal que abala os fundamentos do esporte.
O QUE ACONTECEU
Um tribunal de São Paulo emitiu um mandado de prisão temporária em 23 de abril, com determinação de 30 dias de detenção preventiva. Galvão se apresentou às autoridades em Manaus no dia 28 de abril. O caso teria começado com a denúncia de uma atleta de 17 anos e se expandiu à medida que investigadores identificaram outras supostas vítimas.
O elemento que mais impactou a comunidade foi um áudio. Segundo a polícia, as denunciantes apresentaram uma gravação na qual o suspeito reconhece indiretamente o ocorrido e tenta impedir o avanço do caso com promessa de compensação financeira. O arquivo de 13 minutos viralizou rapidamente. Na gravação, a voz atribuída ao treinador oferecia compensação financeira aos pais da vítima, incluindo a promoção para faixa preta e uma academia em Orlando, na Flórida, em troca de silêncio.
Durante a investigação, outras duas possíveis vítimas foram identificadas em diferentes estados. Em um dos casos, a vítima afirmou ter 12 anos à época dos fatos.
É fundamental deixar claro: o processo está em fase investigativa. Não há condenação. A lei brasileira garante a presunção de inocência e o direito à ampla defesa.

A RESPOSTA DAS FEDERAÇÕES

A reação da IBJJF e da CBJJ surpreendeu pela velocidade. As duas entidades emitiram nota conjunta banindo Melqui Galvão permanentemente de todas as suas organizações e de todos os eventos por elas sancionados, classificando as condutas atribuídas a ele como inaceitáveis e como violação dos mais fundamentais princípios éticos do esporte.
A nota veio horas depois das primeiras reportagens. Para quem acompanha o esporte há anos e já viu casos semelhantes se arrastarem em silêncio institucional por meses, o movimento foi notável. As federações também elogiaram as atletas que tiveram coragem de denunciar, e reafirmaram o compromisso com ambientes seguros, éticos e respeitosos.
MICA GALVÃO: ENTRE A LEALDADE E OS VALORES

Ninguém estava em posição mais difícil do que Mica Galvão. Filho do treinador e um dos maiores atletas da geração atual, ele publicou uma nota que tentava equilibrar gratidão, dor e responsabilidade. Mica afirmou que seu pai foi quem o colocou no tatame pela primeira vez, que tudo o que conquistou tem a mão dele, e que sua gratidão é real e não muda.
Mas foi igualmente direto ao dizer que repudia qualquer forma de assédio ou violência contra mulheres e crianças, pedindo que os fatos sejam investigados com seriedade e que a Justiça cumpra seu papel. Uma declaração de alguém processando, ao mesmo tempo, uma tragédia familiar e uma crise pública.
DIOGO REIS DEIXA O BJJ COLLEGE

O campeão do ADCC Diogo Reis anunciou sua saída do BJJ College, a equipe ligada a Melqui Galvão. Em nota, Reis explicou que inicialmente pretendia ficar para não abandonar a equipe, mas que a dimensão dos fatos tornava impossível continuar, pois iam completamente contra seus princípios e valores.
A saída de um dos rostos mais reconhecidos do time representa mais um desdobramento significativo num caso que ainda não chegou ao fim.
O ESPELHO QUE O ESPORTE PREFERIA NÃO ENCARAR
O caso toca em todas as perguntas que o BJJ há muito tenta evitar: quem protege os jovens atletas, quem investiga as denúncias, e o que acontece quando o acusado é justamente a pessoa da qual todos dependem.
O banimento das federações é uma resposta. A nota de Mica é outra. A saída de Diogo Reis, mais uma. Nenhuma delas substitui o processo judicial, mas todas deixam claro que o silêncio como estratégia está ficando cada vez mais difícil de sustentar.
A investigação segue em andamento. O Mundo Jiu acompanha o caso e trará atualizações conforme novos desdobramentos forem confirmados.
As informações publicadas nesta matéria são baseadas em fatos reportados pela imprensa brasileira e internacional até 3 de maio de 2026. Melqui Galvão não foi condenado. O processo está em fase investigativa.




